
Ainda me são verdes estas lembranças. Em que pese muitos janeiros terem passados desde então.
Lembro. Lembro. E com detalhes posso contar. Não gostava da roça. Porque o sol era de rachar. Para fazer um trabalho mais maneiro, quis estudar. Montei no jumento capricho. Da capivara à serrinha foi um pulo. Era uma manhã. O sol já estava quente, mas não tão quanto se eu tivesse na roça.
Queria estudar. Queria sombra. Ah, ainda tinha merenda! Fui me matricular. Fui pro céu!
A Escola era numa casa, numa casa simples, pequena e bem cuidada.
A sala se transformava na sala de aula pra alunos de manhã e de tarde.
Eu só podia ir de tarde. Tinha que botar água de beber e levar almoço pros trabalhadores de Papai.
Torcia pra o sol logo subir porque isso dizia que logo eu estaria na escola. Gostava de estar na escola de Dona Helena.
Ela escrevia com giz numa pequena “lousa souza” uma letra muito bonita. Quis aprender a imitar o desenho das letras dela. Não consegui.
Quis mais ou mesmo desenhar as letras como estavam na cartilha do ABC.
Depois de um ano, no primeiro ano, estava eu alfabetizado.
Lia devagar. Lia contando as palavras. As grandes me davam trabalho pronunciar. Era melhor escrever.
Quando fui pegar o boletim, a professora Helena disse:
Você está com idade adiantada, mas sabe ler e contar. Vai no próximo ano fazer o 2° e o 3° ano.
Vá comprar esse livro!
E escreveu o nome: “Novo Nordeste – Estudos Reunidos”
Cheguei em casa todo feliz.
Mamãe, passei! Olha aqui o boletim!
Outra coisa Mamãe: “Dona Helena disse que tô velho pra fazer o 2° ano. Ela quer que eu compre um livro pra fazer também o 3° ano.”
No dia seguinte, montei em capricho e fui pra cidade. Tadeu, dono da única papelaria da cidade, disse que eu estava com sorte: porque ainda tinha um livro. Acho que ficou caro. Do dinheiro que Papai me deu só deu pra comprar o livro e pagar um copo de caldo de cana com um pão doce em Seu Horácio.
De volta pra casa, soltei o cabresto de capricho e o deixei andar do jeito que ele queria. Capricho andava devagar. Ele estava castrado, tinha ficado gordo e a preguiça tinha aumentado. De Uiraúna pra capivara devo ter demorado umas 2 horas! Parei no caminho para beber água e mostrar a Dona Helena o livro. Ela disse: É este mesmo! Estude o máximo até começar as aula. Mas eu já tinha lido algumas coisas. Principalmente umas páginas que tinham figuras. Nunca tinha visto um índio. Era enfeitado, bonito. Naquele momento quis ter nascido um índio!
Tinha o cabelo liso. E o meu pra pentear … Chega corria água dos olhos!
No primeiro dia de aula, Dona Helena perguntou: Fabiano, cadê o livro?
Taqui Professora! Cadê? E eu, com vergonha, tirei-o de uma sacola de plástico. Ele estava meio disforme, inchado. Não fechava direito. É que, quando fui tomar banho no “poço redondo”, botei-o em cima de uma pedra. Veio um vento e o jogou na água corrente. Como que uma mãe que ver seu filho afogando, nadei muito rápido (nunca tinha nadado daquele jeito!) e o salvei por um triz. Em terra firme, olhei pro livro, e acho ter ficado como que uma mãe que salva seu filho das águas da morte.
AFDuarte (jpa, 12/08/23)
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