Jogadores da NBA elevam o tom na luta por justiça racial

Jogadores da NBA elevam o tom na luta por justiça racial
Foto Reprodução: Kevin C. Cox/Getty Images

As mortes emblemáticas de Breonna Taylor, Ahmaud Arbery, George Floyd e de tantos outros cidadãos negros pelos Estados Unidos e pelo mundo seguem ressoando. Ainda assim, há, em meio a tanta barbárie, espaço para novos ultrajes. Jacob Blake é o nome da vez. Negro, cidadão americano e atacado a tiros, pelas costas, pela polícia do estado do Wisconsin quando tentava apartar uma briga entre duas mulheres no último fim de semana.

Os jogadores da NBA – especialmente os do Milwaukee Bucks – se recusaram a engolir mais essa. O histórico boicote ao andamento dos playoffs bancado pelos atletas do time de Milwaukee nessa quarta-feira é o mais recente e difuso grito por mudanças numa sociedade racista. A atitude é tão enfática porque revela engajamento por mudança independente do custo que ela carregue.

Sem dúvidas o gesto vem na esteira do movimento “Vidas Negras Importam”, e passa um recado muito claro: para os protagonistas do espetáculo, que é a liga americana de basquete (majoritariamente negros), não há fator mercadológico, esportivo ou financeiro que se sobreponha à ideologia de justiça racial. O boicote dessa quarta-feira falou ao mundo sobre negação de subserviência e empoderamento.

A NBA é reconhecidamente uma das ligas esportivas mais progressistas do mundo. Preza pela inclusão, pelo combate ao sexismo e costuma levantar a voz contra o racismo. O caso Donald Sterling (dono dos Clippers banido da liga por racismo em 2014) foi um marco. Mas é inegável que nos dias pré-bolha em meio ao movimento “Vidas Negras Importam”, no entanto, a liga temeu que a pauta, a urgência da questão racial, se impusesse sobre seus interesses. O show tinha que continuar.

Em junho, quando um grupo de jogadores liderados por Kyrie Irving se reuniu para questionar a retomada da temporada em meio a um momento tão importante para cidadãos pretos, a cúpula da liga se mexeu. Argumentou que a bolha seria uma plataforma onde vozes antirracistas seriam amplificadas. Daí um “Black Lives Matter” em letras garrafais impresso em cada quadra da bolha, e jogadores substituindo seus nomes por palavras e expressões engajadas na luta contra o racismo.

O caso Jacob Blake se impôs como o mais novo revés nessa luta. Só que dessa vez, a postura dos jogadores foi além de um simples “basta!”, de um mero “chega!”. Ao simbolicamente suspenderem um entretenimento milionário como o garoto que põe a bola debaixo do braço e decide que a brincadeira acabou, os atletas jogam uma luz mais potente, mais à altura do momento social que se vive. Há beleza nisso. Admiramos um atleta não só por sua postura em relação ao jogo, mas também por seu approach em relação às pautas sociais.

Como cidadão e jornalista negro, penso que quem se surpreende com a grandiosidade das manifestações surgidas na esteira do caso George Floyd passa atestado de noção banalizada de liberdade. Quem se espanta com a ressonância do momento nunca reparou no argumento da luta. Na vida ou no esporte, a pauta antirracista é a pauta mais premente da sociedade atual. O boicote dos jogadores foi providencial. É marcação pressão. Pelo fim do abismo entre privilégio e subcidadania.