Foto Reprodução: Silvio Avila/AFP

Fatores ambientais que influenciam o risco de severidade da covid-19 já estão bem estabelecidos, mas uma questão intriga a ciência: por que pessoas com perfis semelhantes podem ter resultados tão diferentes ao serem infectadas. Uma das respostas pode estar na genética. Um grande estudo colaborativo com dados de mais de 45 mil pessoas identificou 13 locais do genoma associados a um risco mais grave de infecção pelo Sars-CoV-2 ou a uma probabilidade maior de desenvolver a forma agressiva da doença.

A pesquisa, que envolveu mais de 3,3 mil pesquisadores de 25 países, incluindo o Brasil, foi publicada na edição de ontem da revista Nature. Em uma coletiva de imprensa, os autores ressaltaram que a principal utilidade dos resultados é para a descoberta de tratamentos que tenham as variantes genéticas como foco. Principalmente medicamentos que já existam ou estejam sendo desenvolvidos, pois muitos dos genes identificados estão também implicados com outras doenças.

“A implicação clínica mais direta é que, ao identificar conexões biológicas claras (das variantes com a severidade da covid), procuramos drogas, preferencialmente as que vêm sendo desenvolvidas, em vez de começar uma nova pesquisa”, apontou, na entrevista, Mark Daly, diretor do Instituto de Medicina Molecular da Finlândia e membro do Instituto Broad, do MIT, nos Estados Unidos. “Não vemos aplicações clínicas mais importantes que não seja buscar essas drogas, muitas delas estão sendo pesquisadas”, concorda Andrea Ganna, pesquisador do instituto finlandês e líder do estudo.

Na coletiva, Ganna contou que a ideia de identificar as variantes genéticas associadas à gravidade da covid-19 surgiu em março do ano passado, quando cientistas do mundo todo se uniram na Covid-19 Host Genomics Iniciative, uma ação colaborativa na qual pesquisadores fornecem informações genéticas de pacientes que foram infectados com o Sars-CoV-2, resultando em um grande banco de dados. Alguns países, como o Brasil, estão sub-representados na iniciativa devido à baixa quantidade de amostras sequenciadas.

Dos 13 locais do genoma identificados até agora, dois tiveram frequências mais altas entre pacientes de ascendência do Leste Asiático ou do Sul da Ásia do que naqueles de ascendência europeia, ressaltando, segundo os pesquisadores, a importância da diversidade nos conjuntos de dados genéticos. “Temos tido muito mais sucesso do que os esforços anteriores na amostragem da diversidade genética porque fizemos um esforço conjunto para alcançar as populações em todo o mundo”, disse Daly. “Penso que ainda temos um longo caminho a percorrer, mas estamos fazendo progressos muito bons.”

Algumas das variantes identificadas pelo grupo foram descobertas em estudos anteriores. Por exemplo, os pesquisadores confirmaram uma ligação genética entre o tipo sanguíneo e o risco de infecção — pessoas do tipo O parecem um pouco mais protegidas contra o vírus, embora ainda não se saiba o motivo. O estudo também verificou que uma variante que desativa o gene TYK2 aumenta o risco de doença crítica e hospitalização. Essa mutação é conhecida por proteger contra doenças autoimunes, mas deixa as pessoas mais vulneráveis à tuberculose.

Em latinos

Mas pelo menos uma associação era desconhecida: uma variante em um gene chamado FOXP4 está associada à covid-19 mais severa, descobriu a equipe. Ela aumenta a atividade do gene e foi, anteriormente, relacionada ao câncer de pulmão e à doença pulmonar intersticial, um grupo de enfermidades que causam cicatrizes e rigidez nos pulmões. Drogas ainda a serem desenvolvidas que inibem a atividade da proteína do FOXP4 podem ajudar as pessoas a se recuperarem da covid-19 ou evitar que o estado se agrave, segundo os pesquisadores.

A versão do FOXP4 associada à doença é mais comum entre as populações asiáticas e latinas nas Américas, disse Mark Daly. Apenas 2% a 3% das pessoas com ascendência europeia carregam a variante, em comparação com 7% das pessoas no Oriente Médio, 20% dos latinos e 32% dos asiáticos.

A influência genética, porém, não é maior que a ambiental, destacaram os pesquisadores. “Quando lidamos com doenças infecciosas, há um imenso papel do ambiente. Por exemplo, se você nunca for exposto (ao agente infeccioso), a infecção pode ser mais severa”, aponta Daly. “Claramente, há um papel da genética (na covid-19), mas ele não é tão grande comparado aos fatores de risco ambientais e comportamentais. Talvez, isso seja verdade em relação aos jovens, que são indivíduos ainda não tão impactados por aspectos como tabagismo, obesidade e diabetes”, completa Andrea Ganna.

Em nota, Ben Neale, codiretor do Programa de Genética Médica e Populacional do Instituto Broad, do MIT, e coautor sênior do estudo, disse que, embora as vacinas protejam contra a infecção, ainda há “espaço substancial” para melhorias no tratamento da covid-19, algo que a análise genética pode ajudar a alcançar. Segundo ele, o incremento das abordagens pode ajudar a mudar a pandemia e caracterizar a covid como uma doença endêmica. “Quanto melhor conseguirmos tratá-la, mais bem equipada estará a comunidade médica para controlar a doença”, disse.

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